Juazeiro do Norte completa 115 anos nesta quarta-feira (22) em meio a um paradoxo: a cidade do Padre Cícero, uma das mais visitadas do Nordeste, assistiu ao desaparecimento progressivo de seu patrimônio arquitetônico. Um mapeamento realizado pela arquiteta Hévila Ribeiro durante seu Trabalho de Conclusão de Curso revelou que mais de 70% das casas antigas do município foram demolidas. Para resistir a essa tendência, ela comprou e passou a restaurar, na Rua da Conceição, um imóvel de meados do século passado que estava há anos abandonado no coração da cidade.
O projeto de restauração já dura dois anos. O trabalho foi minucioso: conseguiu preservar mais de 80% da estrutura original, incluindo portas, janelas e o piso — que foi retirado e recolocado integralmente. Os banheiros receberam ladrilhos fabricados artesanalmente pela fábrica-museu de mestre Jaime, em Barbalha. A arquitetura do imóvel mistura influência colonial, com paredes grossas de sustentação, traços geométricos da Art Déco e inspirações das culturas portuguesa e espanhola — um reflexo do ecletismo brasileiro das décadas de 1930 a 1950. "Praticamente tudo foi reaproveitado. É um processo demorado e a mão de obra precisa ser muito qualificada. Encontrar profissionais mais antigos, que dominem essas tecnologias construtivas do passado e tenham esse cuidado, é uma das maiores dificuldades", revela Hévila.
A pressão do comércio e do turismo é apontada pela arquiteta como principal motor das demolições. "Quando a gente comparava com outras cidades, como Crato e Barbalha, Juazeiro do Norte, que é uma cidade tão importante, a cidade do Padre Cícero, que recebe tantos romeiros o ano inteiro, a cidade não conta a história do Padre Cícero", aponta. O historiador e coordenador de Patrimônio Cultural do município, Roberto Júnior, confirma o diagnóstico: "Hoje, Juazeiro do Norte é uma cidade em que nós vivenciamos um processo de referenciamento dos marcos do nosso patrimônio muito mais por fotografias do que com exemplo vivo". Segundo ele, foram décadas de atraso na legislação patrimonial que deixaram a cidade desconfigurada. Juazeiro do Norte possui apenas 40 bens móveis e imóveis tombados pelo município — ainda assim, o maior número da região, de acordo com o coordenador.
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