O Crato chega aos 262 anos neste sábado (20) carregando séculos de história gravados em suas construções coloniais, mas enfrentando o risco de perder parte dessa memória. A cidade, uma das mais antigas do Cariri cearense, vê prédios históricos sendo demolidos ou abandonados enquanto gestores e especialistas mobilizam esforços para catalogar e preservar o que ainda resta. A prefeitura municipal iniciou o mapeamento dessas edificações para lançar um almanaque didático, enquanto um grupo de arquitetos aposta na tecnologia para resgatar virtualmente o passado arquitetônico da Princesa do Cariri.
Entre os marcos que resistem ao tempo está a antiga Casa de Câmara e Cadeia, construída em 1877 no encontro da Praça da Sé com a Rua Senador Pompeu. O edifício de estilo neoclássico, tombado em nível estadual, hoje abriga o Museu de Arte Vicente Leite e o Museu Histórico do Crato. A Sé Catedral Nossa Senhora da Penha, outro símbolo da arquitetura colonial que começou como pequena capela de tapera no século 18, aguarda processo de tombamento pela Secretaria da Cultura do Ceará. Já a Estação Ferroviária, inaugurada em 8 de novembro de 1926 e desativada em 1989, possui tombamento estadual e espera também avaliação do Iphan para proteção federal.
O historiador Iaré Lucas Andrade explica que a arquitetura colonial representa a formação da identidade regional: a elite do Cariri se espelhava no modelo europeu, resultando em construções com colunatas sóbrias e arcos bem definidos, diferentes do barroco ostentoso de outras regiões. O Crato funciona como cidade-mãe da região, a partir da qual Juazeiro do Norte, Barbalha e Milagres se formaram. Antes de virar vila no século 18, o território era habitado por índios cariris e começou a receber colonizadores vindos da Bahia, Sergipe e Pernambuco a partir de 1714, atraídos pela fertilidade do solo.
Para reverter o cenário de esquecimento, o arquiteto Waldemar Arraes lidera um projeto científico inovador de reconstrução virtual tridimensional do Centro Histórico, abrangendo o período do final do século 19 até os anos 1920. Utilizando fotografias antigas, mapeamentos e dados históricos, o grupo desenvolve uma maquete digital realista que em breve ganhará sala exclusiva em um dos museus da cidade, permitindo passeios virtuais pelo Crato do passado. O secretário de Cultura, Wilton Dedê, reconhece que falta investimento em educação patrimonial e lamenta as perdas já registradas: prédios históricos continuam sendo derrubados, levando consigo histórias que se tornam cada vez mais difíceis de lembrar.
Com informações de G1 Ceará.
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