No Dia Nacional do Livro, celebrado na quinta-feira, 29 de outubro, três escritoras da região do Cariri cearense chamam atenção pela missão que têm em comum: dar voz a quem foi historicamente silenciado. Vindas de trajetórias diferentes — a história, a poesia e a literatura infantil —, Dia Bárbara Nobre, Zulmira Correia e Aline Bussons reúnem obras que revelam personagens e experiências pouco representados nas letras brasileiras.
A historiadora Dia Bárbara Nobre nasceu em Juazeiro do Norte e encontrou seu caminho na ficção após anos pesquisando a historiografia cearense. Ao se deparar com a figura de Maria de Araújo — personagem central do Cariri que ocupava pouco espaço nos registros literários —, produziu o livro Incêndios da Alma, que se tornou referência para estudiosos do catolicismo popular da região. Dessa experiência nasceu o desejo pela ficção: em 2025, lançou o romance Boca do Mundo, que aborda a vida de mulheres que sofrem violência doméstica e o poder da união entre elas. "A literatura me permitiu fazer uma pergunta diferente. Não apenas 'o que aconteceu com essas mulheres?', mas: 'e se elas pudessem falar?'", explica a autora.
Zulmira Correia, nascida na zona rural do Crato, lançará em novembro o livro Água-ventre, obra que mescla poesia com outros gêneros literários e reúne personagens femininas inspiradas em mulheres que atravessaram sua vida. Antes de virar livro, o projeto existia como exposição de arte, reunindo arquivos sonoros, fotográficos e textuais sobre memória matriarcal e território, tendo como referência as águas da Chapada do Araripe. "Minha bisavó era parteira e dela vieram alguns desses caminhos, inclusive parte desse título. Minha família é matriarcal. Tenho exemplos de mulheres em suas essências, histórias de vida, enfermeiras, agricultoras, parteiras, rezadeiras", conta a escritora.
Já Aline Bussons trilha o caminho da literatura infantil com histórias protagonizadas por animais — metáforas para tratar de respeito, diferenças e autonomia das crianças. Autora de Uma baleia muito esperta e O Hipopótamo que tinha ideias demais, ela está trabalhando em novo título de autoficção sobre sua infância em Missão Velha, cidade do Cariri onde viveu parte da vida. "Sempre estou chamando a atenção para o direito à liberdade que a criança tem de pensar, de imaginar", afirma. Para a pesquisadora e doutora em Letras Luciana Bessa, da Universidade Federal do Ceará, o trabalho dessas escritoras se insere num entendimento mais amplo: o de que a literatura é uma arte política, criada por seres que carregam visões de mundo e intenções na linguagem.
Com informações de G1 Ceará.
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