Icó preserva mais de 400 imóveis históricos dos séculos 18 e 19
A cidade de Icó, no Centro-Sul do Ceará, abriga mais de 400 construções dos séculos 18 e 19 protegidas por tombamento federal. O município foi o primeiro do Estado a ter seu Conjunto Arquitetônico e Urbanístico reconhecido pelo Iphan, em 1998, e segue como referência na preservação da arquitetura tradicional cearense.
A cidade de Icó, localizada no Centro-Sul cearense, impressiona visitantes com seu acervo arquitetônico preservado. O município abriga mais de 400 construções dos séculos 18 e 19 protegidas pelo tombamento federal, parte do Conjunto Arquitetônico e Urbanístico que se tornou o primeiro do Ceará reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1998. Quase três décadas depois, a cidade de aproximadamente 62 mil habitantes segue como referência estadual na conservação da arquitetura tradicional. A formação colonial por portugueses e franceses resultou em um estilo barroco com características regionais nordestinas e traços do neoclássico francês.
O surgimento de Icó está ligado à ocupação de sesmarias às margens do Rio Jaguaribe, onde se instalaram currais de gado e moradias. O aldeamento que prosperou deu origem à Vila de Icó em 1726 e, em 4 de maio de 1738, alcançou a emancipação como cidade. O município também se destaca por ter sido um dos primeiros do país a contar com legislação urbanística, estabelecida por uma Resolução Provincial de 1850 que definiu novo perímetro urbano. O arquiteto Márcio Rodrigo Coelho de Carvalho explica que o traçado monumental reflete a comunicação com os padrões europeus de urbanização e o processo de interiorização da ocupação colonial portuguesa.
O centro histórico tem como principal referência o Largo do Théberge, apontado como o maior da América Latina com seus 955 metros de extensão. O nome homenageia o médico e historiador francês Pierre François Théberge, que chegou à cidade em 1848 e teve papel fundamental na vida cultural local. Em 1860, sua família construiu o Teatro das Ribeiras, pioneiro no Ceará, com arquitetura neoclássica e elementos paladianos. O pesquisador Cláudio Pereira da Silva, secretário adjunto de cultura, relembra que o escritor Ariano Suassuna considerava Icó tão importante que declarou: qualquer trabalho sobre sua vida perderia o sentido se a cidade não estivesse incluída. O teatro permanece ativo e recebe apresentações quase todos os finais de semana, apesar de passar por intervenções de manutenção.
Diversos edifícios históricos mantêm funções públicas, preservando a vitalidade urbana. A Casa de Câmara e Cadeia, antiga sede administrativa e judiciária, foi cenário do planejamento da Confederação do Equador em 1824 e abrigou como prisioneira a revolucionária pernambucana Bárbara de Alencar; atualmente funciona a secretaria de educação municipal. O Palácio da Alforria, local de nascimento de Antônio Pinto Nogueira Accioly — que governou o Ceará por três vezes entre 1896 e 1912 —, recebeu esse nome por ter sido onde se assinou, em 25 de março de 1883, a carta de libertação dos escravizados da cidade. O Mercado Público, concluído em 1873 e restaurado pela última vez em 1998, continua operando com comerciantes que resistem às mudanças econômicas.
A fé católica perpassa a identidade icoense: o IBGE registra que mais de 81% da população segue essa religião. O Santuário Senhor do Bonfim, erguido pelo capitão-mor Bento da Silva Oliveira em cumprimento a um voto pela cura de um familiar, tornou-se importante destino de peregrinação. Entre 22 de dezembro e 1º de janeiro, as festividades do Senhor do Bonfim atraem de três a quatro mil pessoas, segundo o pároco Yedo Ian. Moradores que vieram de outras cidades e construíram vida em Icó demonstram forte vínculo afetivo com o lugar. A vendedora Claecy Vieira, natural de Acopiara, chegou há 20 anos em busca de trabalho e hoje considera a experiência uma bênção: "Já me sinto icoense. A gente aprende a gostar, a ter uma fé, uma devoção no Senhor do Bonfim", afirma.
A conservação do patrimônio permanece viva no dia a dia. Residências e sobrados tombados continuam habitados, com reformas realizadas mediante autorização do Iphan. A artesã Vanusa Vitorino da Silva, moradora há mais de 30 anos de uma casa protegida, relata que toda restauração ou pintura é feita com orientação do escritório técnico do órgão. Para o arquiteto Márcio Rodrigo Coelho de Carvalho, os moradores demonstram plena consciência do valor dos tombamentos e preservam por iniciativa própria. "A ocupação desses casarões mantém uma vida cotidiana pulsante vinculada às necessidades do icoense", destaca, reforçando que essa dinâmica cumpre o propósito do patrimônio cultural de manter os laços afetivos entre os residentes e a cidade.